Segunda parte da série: Quatro Artistas Brasileiros da Nova Geração
Se no primeiro post desta série falamos sobre a Bala Desejo como banda, agora é hora de mergulhar no universo solo de um dos seus integrantes mais carismáticos: Zé Ibarra. E prepare-se, porque a trajetória desse sagitariano de 28 anos é tão rica quanto sua voz hipnotizante.
Mais Que Um Integrante de Banda
José Vitor Ibarra Ramos nasceu em 20 de dezembro de 1996, no Rio de Janeiro, filho de uma produtora de eventos chilena e um fotógrafo baiano. Desde os 6 anos, quando começou na bateria, passando pelo violão e piano, ficou claro que a música não era apenas um hobby – era parte essencial de quem ele é.
Zé é violonista, pianista, produtor musical e compositor – um artista completo no sentido mais literal da palavra. E essa versatilidade se reflete em tudo que ele toca.
De Dônica ao Estrelato
A carreira do Zé começou oficialmente em 2015, quando fundou a banda Dônica ao lado de Lucas Nunes (sim, o mesmo Lucas que viria a ser seu parceiro no Bala Desejo), Tom Veloso, André Almeida e Rodrigo Parcias. O primeiro disco da Dônica, “A Continuidade dos Parques” (2015), já mostrava uma sonoridade de rock progressivo que deixava claro: ali estava alguém disposto a experimentar.
Em 2021, durante a pandemia, veio a Bala Desejo – e com ela, o Grammy Latino. Mas enquanto a banda conquistava o mundo, Zé já planejava seu voo solo.

Colaborações Com Gigantes
Antes mesmo de se consolidar como artista solo, Zé Ibarra já havia cantado com grandes nomes como Milton Nascimento e Tim Bernardes. Ele acompanhou Milton Nascimento nas turnês “Clube da Esquina” (2019) e “A Última Sessão de Música” (2022), experiências que moldaram profundamente sua visão artística.
Imagine ter a oportunidade de tocar guitarra e cantar ao lado de um dos maiores nomes da MPB. Para Zé, essa não foi apenas uma honra, com certeza foi uma escola.

“Marquês, 256”: O Disco da Escada
O primeiro álbum solo de Zé, “Marquês, 256” (2023), foi gravado na escada do prédio onde ele morava com a avó no Rio de Janeiro. Sim, você leu certo: na escada.
“Esse disco surgiu antes mesmo de ser um disco. Eu morei durante muitos anos com a minha avó, num edifício do Rio de Janeiro, que tem um corredor, uma escadaria, com um som maravilhoso, uma acústica muito boa. Desde os quatro anos de idade eu já sabia disso: ia para o corredor para ficar batucando”, explica Zé.
O álbum foi gravado quase todo ao vivo, algumas músicas no primeiro take, criando um registro íntimo e genuíno de um artista em sua forma mais pura.

“AFIM”: A Reinvenção
Em junho de 2025, Zé lançou “AFIM”, seu segundo álbum solo, pelo selo Coala Records. O disco reúne oito faixas entre composições próprias e versões de artistas contemporâneos, em uma proposta estética que combina elementos da MPB, rock progressivo, jazz e pop.
Zé conta que se sentia com o desejo prejudicado pelas pressões do mundo contemporâneo, especialmente pelas redes sociais, pelos algoritmos e pelo medo constante de errar ou fracassar. Para ele, “AFIM” é uma forma de reafirmar o livre arbítrio.
“Eu quis ficar a fim de mim mesmo, a fim da multiplicidade que eu posso ser”, afirma Zé. “Quando a gente se apaixona por algo, a gente perde o medo, ganha força. Existe um poder no desejo.”

As Faixas que Me Conquistaram
Do vinil que acabei de comprar, três músicas me marcaram especialmente:
“Transe” – A faixa mescla jazz, MPB e rock progressivo, construída sobre um violão ritmado que sustenta camadas sonoras dinâmicas. É marcada por auras cinematográficas, com clima de mistério. É a música-tese do álbum, segundo o próprio Zé.
“Segredo” (de Sophia Chablau) – Zé se apropria de um canto mais malicioso e eu diria que até “safado”, para entoar os versos “Mas se você quiser, eu viro um segredo seu”. Arranjo dançante que mistura jazz e pop com facilidade, resultando em clima de mistério e festa.
“Morena” – Uma das faixas com os sopros do Copacabana Horns, que dão uma textura especial ao som.
Grammy Latino 2025
E como se não bastasse todo esse talento, Zé Ibarra foi indicado ao Grammy Latino 2025 na categoria “Melhor Canção em Língua Portuguesa” com “Transe”. A cerimônia acontece daqui duas semanas em Las Vegas, e Zé concorre ao lado de nomes como Milton Nascimento & Esperanza Spalding, Liniker, Marina Sena e Julia Mestre (sua ex-colega de Bala Desejo). Difícil escolher um só entre tanto talento, né?

Turnês Internacionais
Como artista solo, Zé já realizou shows solo no Japão, Portugal e Estados Unidos, além de ter completado recentemente uma turnê como abertura dos shows de Seu Jorge. A música brasileira está ganhando o mundo, e Zé é um dos principais embaixadores dessa nova geração.
Um Artista Engajado
Zé também não se furta de usar sua voz para questões sociais e políticas. Em 21 de setembro de 2025, ele esteve presente no grande protesto em Copacabana, no Rio de Janeiro, contra a PEC da Blindagem (também chamada de “PEC da Bandidagem”) e o projeto de anistia aos condenados pela tentativa de golpe de Estado. O evento reuniu mais de 40 mil pessoas e contou com a participação de gigantes da MPB como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan, Maria Gadú e Marina Sena, mostrando que ser artista hoje também significa tomar posição e lutar pela democracia.
O Futuro é Agora
Zé Ibarra tem se mostrado um dos artistas mais versáteis da nova geração, transitando com naturalidade entre o rock progressivo da Dônica, a tropicália festiva da Bala Desejo e a experimentação sofisticada de seus trabalhos solo.
“AFIM” não é apenas um álbum, é uma declaração de independência artística. É Zé dizendo ao mundo: “Eu posso ser tudo isso e mais um pouco. E vou ser.”
Com apenas 28 anos, uma indicação ao Grammy Latino, colaborações com lendas da MPB e dois álbuns solo que mostram maturidade impressionante, Zé Ibarra não é apenas uma promessa – ele já é realidade.
E o melhor: ele está apenas começando.
Assista o unboxing do álbum no Instagram @thecuratorpost


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