Primeira parte da série: Quatro Artistas Brasileiros da Nova Geração
Para celebrar o Dia da MPB (hoje, 17 de outubro), estou lançando uma série de quatro vídeos sobre artistas brasileiros da nova geração que estão redefinindo a música popular brasileira. E começamos com a Bala Desejo.
Descobrir uma nova banda pode acontecer de várias formas. No meu caso, foi em abril de 2024, no show de Caetano Veloso em New Jersey, durante a turnê “Meu Coco”. No final da apresentação, Caetano começou a apresentar os músicos. Quando chegou em Lucas Nunes, o guitarrista da noite, mencionou que ele era integrante de uma banda chamada Bala Desejo. E o Lucas não estava ali apenas como guitarrista. Ele foi o produtor e diretor musical de toda a turnê “Meu Coco”, e tem se tornado uma figura central nas produções mais recentes de Caetano, incluindo o próprio álbum “Meu Coco” (2021).
Fiquei curioso para saber mais sobre Lucas e, naturalmente, sobre a Bala Desejo. Fui ouvir. E virei fã na hora.

De Lives na Escada ao Grammy Latino
A história da Bala Desejo é super interessante. A banda se formou em 2021, durante a pandemia, no Rio de Janeiro. Os quatro integrantes – Lucas Nunes, Dora Morelenbaum, Zé Ibarra e Julia Mestre – começaram fazendo lives na escada do prédio de Zé Ibarra durante o isolamento. O que era diversão entre amigos virou algo maior quando receberam um convite para tocar no Coala Festival 2021 em São Paulo.
Com o festival adiado por causa da pandemia, decidiram aproveitar o tempo para gravar um disco. Foram para um sítio em Minas Gerais e registraram “SIM SIM SIM” em uma imersão criativa que define bastante a energia do álbum.
“SIM SIM SIM”: Um Álbum Celebratório
Lançado em 16 de fevereiro de 2022, “SIM SIM SIM” tem 13 faixas que passeiam por tropicália, samba, reggae, frevo, salsa e outras influências latinas. É um disco festivo, solar, que dialoga diretamente com os clássicos da tropicália dos anos 70 – você ouve referências claras de Novos Baianos, Gal Costa, Gilberto Gil – mas com uma pegada totalmente contemporânea.
A produção teve coprodução de Ana Frango Elétrico (que será tema de um dos próximos posts desta série) e supervisão de Marcus Preto, produtor que já trabalhou com Gal Costa. The Guardian definiu bem: “um quarteto brasileiro que produz um debut luxuriante, atravessando a tropicália dos anos 70 até samba, fanfarras de metais e funk, tudo ancorado pelas suaves harmonias coletivas do grupo.”
A Vitória no Grammy
Em novembro de 2022, apenas nove meses após o lançamento, a banda venceu o Grammy Latino na categoria “Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa”. Competiram contra nomes já estabelecidos como Jão, Marina Sena, Gilsons e Luísa Sonza – e ganharam!
O timing foi simbólico: a cerimônia aconteceu na mesma semana em que o Brasil perdeu Gal Costa e Erasmo Carlos. Para Zé Ibarra, o momento representou uma espécie de passagem de bastão geracional: “Toda nossa geração está sentindo, vai sentir. Mas esta geração é boa. A galera está matando no peito. A gente está com uma sede, um dever, um respeito por este momento.”

As Músicas que Grudaram
No vinil que acabei de comprar, três faixas se destacam:
“Baile de Máscaras (Recarnaval)”: Uma “marcha caetanada”, como a própria banda define, que mescla frevo com sutis referências a “Construção” de Chico Buarque. É a segunda faixa do álbum e funciona como uma declaração de intenções.
“Lua Comanche”: Um dos meus favoritos do disco. Groove, melodia, arranjo – tudo funciona perfeitamente.
“Passarinha”: Provavelmente a faixa mais conhecida do álbum, escolhida como tema da personagem Brisa (Lucy Alves) na novela “Travessia” da Rede Globo. A exposição na TV aberta levou a música para um público muito maior.
Performance e Política
Algo que torna a Bala Desejo interessante é a postura no palco. A banda incorpora afeto, desejo e liberdade de forma explícita e política. Zé Ibarra explica: “A gente se beija ali, no palco, porque a gente se beija na vida, mas também existe uma vontade de causar coisas, que não é vã: é causar desejo, tesão mesmo, no público. É um afeto que é político.”
Essa energia se traduz em shows que viraram eventos – algo que ficou evidente em festivais como Rock in Rio e Primavera Sound na Espanha.

O Que Vem Por Aí
Este é o primeiro post de uma série sobre quatro artistas brasileiros da nova geração. Nos próximos episódios: Zé Ibarra, Dora Morelenbaum e Ana Frango Elétrico – artistas que, cada um à sua maneira, estão ajudando a redefinir a MPB atual.
A Bala Desejo é mais do que uma banda de sucesso. É um projeto que mostra o potencial de renovação da música brasileira e prova que existe uma nova geração fazendo música de qualidade, com identidade própria, e conquistando público e crítica.
Como eles cantam na faixa de abertura: “Bala Desejo, eu quero um beijo molhado”. Depois de ouvir “SIM SIM SIM”, fica difícil não retribuir 💋
Assista o unboxing do álbum no Instagram @thecuratorpost


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